quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

HISTÓRIAS DO BONFIM...

Antônio Pedro de Souza
            Entre os túmulos presentes no famoso Cemitério do Bonfim, no bairro de mesmo nome em Belo Horizonte, alguns se destacam devido sua importância cultural, religiosa e histórica. Em se tratando de um cemitério que é mais antigo que a própria capital (ele foi inaugurado em 08/02/1897, enquanto a cidade foi inaugurada em 12/12 do mesmo ano), praticamente tudo é histórico, mas alguns elementos se sobressaem.
            São túmulos de políticos, religiosos, artistas... Grandes nomes que ajudam a contar a história da cidade.
            Entrando no túnel do tempo do Bonfim, vamos direto ao 1º túmulo: localizado na Quadra 5, a sepultura perpétua de Bertha tem a idade do cemitério. Segundo Luiz Carlos Zaidan, coveiro que trabalha no Bonfim há quarenta anos, o sepultamento ocorreu no dia da inauguração do Bonfim. O local é protegido por uma grade de metal com um portãozinho e fica sob a sombra de um frondosa árvore.
            Além de Bertha, outro túmulo muito procurado é o de Irmã Benigna. Nascida em 16/08/1907, em Diamantina, Minas Gerais, Maria da Conceição Santos passou a usar o nome religioso Irmã Benigna Victima de Jesus ao ingressar na Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade.
            Com gestos simples e solidários, Irmã Benigna conquistou muita gente. Ela faleceu em 16/10/1981 e foi sepultada no Bonfim, onde seu corpo permaneceu até 2012, quando seus restos mortais foram transferidos para o Noviciado Nossa Senhora da Piedade na Pampulha.
            Ainda na linha dos túmulos sagrados, o de Beato Eustáquio atrai os fiéis. Nascido em 03/11/1890 em Aarle Rixtel, na Holanda, Humberto van Lieshout chegou ao Triângulo Mineiro em 1925. Em 1942 é transferido para Belo Horizonte. Nessa época, já era famoso em todo o país, devido os serviços prestados pela Igreja Católica e prováveis milagres. Em 09/09/1942, Juscelino Kubitscheck, então prefeito de Belo Horizonte, doou à paróquia um terreno pra a construção de uma igreja. Ele agradecia um milagre atribuído a Padre Eustáquio. No lançamento da Pedra Fundamental da construção, um fato curioso chamou a atenção: Padre Eustáquio confidenciou a alguns amigos que lançava a pedra fundamental daquela igreja, mas que não a veria pronta. No dia 30 de agosto de 1943, Padre Eustáquio faleceu.
            Ele foi beatificado em 15/06/2006.
            Túmulos de políticos também chamam a atenção no Cemitério do Bonfim. Estão sepultados lá os ex-presidentes do Estado de Minas Gerais (cargo equivalente a Governador), Olegário Maciel e Raul Soares, o ex-prefeito da cidade Bernardo Monteiro, entre outros. Os túmulos sustentam um exuberância única e um luxo impressionante.
            Quem também está sepultada no Bonfim é dona Júlia Kubitscheck de Oliveira, mãe do ex-presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira.
            Além de túmulos políticos e sagrados, destacam-se no Bonfim jazigos de esportistas, artistas e pessoas que influenciaram a cultura e a economia da capital mineira. E histórias não faltam para serem contadas.
            Luiz Carlos Zaidan, meu guia em uma das incursões feitas no Bonfim, tem prazer de ter conhecido vários dos sepultados de lá. “Eu trabalho aqui há quarenta anos. Conheci muitos dos que estão enterrados aqui.” Ele conta a história de uma senhora que sepultou o filho – um jovem de apenas dezessete anos – e toda semana ia visitar o jazigo.
            Regularmente, ela pagava uma empresa especializada para limpar e polir o túmulo, além de, ela mesma, com a ajuda da equipe do cemitério, fazer pequenas faxinas e reparos no lugar.
            Certo dia, conta Luiz, ela pediu ajuda aos funcionários para dar uma boa limpeza na lápide, pois em três dias, no máximo, ela seria sepultada ali. Os funcionários a ajudaram, mesmo achando estranha a premonição. Na noite daquele mesmo dia, chegou a notícia do falecimento da senhora. Ela foi sepultada um dia depois.
            O coveiro também conta a história de um oficial das Forças Armadas que diariamente visita o túmulo da esposa e leva flores, além da simpática Dona Elza, que alimenta os gatos e cães que vivem no Cemitério.
            A ARTE PÓS-MORTE:
            Para Luiz Carlos, um dos grandes atrativos do Bonfim são as esculturas. Entre elas, suas preferidas são as do escultor João Amadeu Mucchiut. Para ele, o artista soube retratar esculpir com perfeição as pedras para transformá-las em arte. São dele várias cestas, anjos, entre outros ornamentos. Todos em pedra.
            Além das esculturas de Mucchiut, os artistas Cezar Alexandre Formenti, Professor G. Navone, L. Galante, José Scarlatelli, Carlos Simi Storn, Heitor Usai, A. M. Wolf, Jeanne Louis Milde e Ettore Ximenes também assinam obras no cemitério.
            Um capítulo a parte na arquitetura do Bonfim é a Capela Central. Construída com a necrópole, o prédio abrigava o necrotério da cidade, mas seu uso foi mínimo nos primeiros anos de vida da capital. Em 1900, Bernardo Pinto Monteiro, prefeito de BH propôs usar o espaço para se fazer uma capela. Assim, os padres poderiam fazer as encomendações das almas e as missas de corpo presente.
            O projeto foi aceito e o prédio passou a ser mais utilizado como capela, velório e ainda necrotério. Quando a Faculdade de Medicina e o Instituto Médico Legal foram criados, a função de necrotério foi encerrada. O mesmo aconteceu com a Capela, anos depois, devido o grande número de funerárias e velórios que surgiram na capital.
            O prédio foi tombado pelo IEPHA – MG em 02/06/1977.
           
FAUNA E FLORA DO BONFIM:
            Além dos cães e gatos que encontraram abrigo no cemitério, pássaros de diversas espécies fazem seus ninhos nas várias árvores espalhadas pelo local. E elas também são de espécies variadas: mangueiras, ameixeiras, amoreiras, entre outras. Zaidan só reclama de não terem tantas jabuticabeiras: “seria bom se tivesse mais pés de jabuticaba. Os passarinhos iam gostar e nós (funcionários, visitantes) também.”

            É interessante ver como a vida aflora em meio a morte. É gostoso ouvir o canto dos pássaros, a tranquilidade e a paz que emana da mais antiga necrópole de BH. É reconfortante constatar que a vida segue seu ciclo. O Cemitério do Bonfim consegue reunir a vida e a morte de uma maneira poeticamente irresistível.

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