Antônio Pedro de Souza
Quem passa pelo número 1120 da rua Bonfim, no
bairro de mesmo nome, em Belo Horizonte, pode até não saber, mas está diante do
espaço público mais antigo da capital de Minas Gerais. Fundado em 08/02/1897 –
dez meses antes da cidade ser oficialmente inaugurada – o Cemitério do Bonfim
reúne um número impressionante de obras de arte, túmulos famosos e muita
história pra contar.
Pertencente à Fundação de Parques Municipais de
Belo Horizonte, o Bonfim é um dos quatro cemitérios públicos da capital, sendo
ele e o da Saudade tidos como clássicos (em que é permitida a construção de
mausoléus e obras de arte sobre os túmulos) e o da Paz e da Consolação como
parques (em que há apenas o túmulo abaixo do nível do chão, com uma lápide
sobre o mesmo).
Bonfim,
no entanto, destaca-se dos seus “irmãos” devido à sua importância histórica,
cultural e seu apelo popular.
De acordo com o assistente administrativo
Judson Rodrigues, que há três anos trabalha no local, o cemitério, cujo nome é
em homenagem a Nosso Senhor do Bonfim, está em processo de tombamento pelo
Patrimônio Histórico e Cultural. Judson vê isso com bons olhos, já que tal fato
ajudará na preservação do espaço.
Ainda segundo com o assistente, atualmente não
há jazigos disponíveis para venda, mas um levantamento está sendo feito e,
provavelmente, em 2015 alguns túmulos serão disponibilizados para interessados.
O espaço tornou-se tão importante, que nos
últimos anos são organizadas, mensalmente, visitas guiadas para contar a história
e curiosidades do lugar.
Dentro
do cemitério, a vista é deslumbrante. Estátuas, capelas, mausoléus históricos
retratam as muitas vidas que foram enterradas ali. Há túmulos que abrigam
famílias inteiras. Gente que viveu quase cem anos e gente que viveu apenas um
mês.
Bira, um
dos funcionários mais antigos, me indica o túmulo mais velho: pertence à uma
jovem que tinha apenas vinte anos. O sepultamento foi feito no dia da inauguração,
no fim do século XIX. Hoje, o local é protegido por uma grade com um
portãozinho. Um frondosa árvore cresceu no lugar e, ao pé do tronco, uma placa
informa o nome da pessoa enterrada.
Perto dali, está uma das sepulturas mais
visitadas: a da Irmã Benigna. Enquanto o Vaticano realiza os procedimentos
investigativos para a canonização de Irmã Benigna, centenas de fiéis deixam
placas em agradecimento à graças alcançadas. Quem me leva ao local é dona Elza,
curiosa figura que sabe muitas histórias sobre o Bonfim. Elza conta que
conheceu Irmã Benigna pessoalmente e que, foi graças à intercessão da freira,
que ela escapou ilesa de um assalto. Em 2012, os restos mortais de Benigna
foram transferidos para o Noviciado Nossa Senhora da Piedade, na Pampulha, mas
o túmulo e os ex-votos do Bonfim foram preservados.
Encontram-se também no cemitério, os túmulos da
Menina Marlene, a quem são atribuídos milagres e do Beato Eustáquio.
Além dos túmulos, considerados sagrados,
citados acima, várias personalidades estão enterradas no Bonfim, entre elas: o
ex-presidente da república Olegário Maciel, ex-ministro da marinha Raul Soares;
ex-governador Benedito Valadares, dona Julia Kubitschek, mãe de Juscelino
Kubitschek e o jornalista e escritor Roberto Drumond.
Sobre dona Elza, a quem
citei acima, vale ressaltar o trabalho diferenciado que ela faz: diariamente,
há mais ou menos cinco anos – como ela mesma diz –, Elza leva comida e água aos
vários animais que moram no Bonfim. São alguns cães e muitos gatos que, muitas
vezes abandonados nas ruas, encontram abrigo e esperança de vida num lugar que
para a maioria é sinônimo de morte.
Basta dona Elza se
aproximar com as garrafas de água fresca e as vasilhas – limpíssimas, por sinal
– de comida para que os bichos entrem em alvoroço. Velha conhecida dos
funcionários e visitantes do lugar, ela também providencia para que alguns dos
animais sejam adotados. “Semana passada, uma moça levou um cãozinho que estava
por aqui. Estou vendo se alguém pode levar aquele marronzinho ali.” Entre um
petisco e outro dado aso animais, sentamos para conversar em um banco e falamos
desde os “túmulos santos” até política.
Para ela, há muito
tempo os políticos estão deixando a desejar. “Olha o estado deste cemitério!
Está sujo, mal conservado.” Reclama.
Continuando nosso
passeio, podemos ter, em alguns pontos do Bonfim, uma vista linda: a cidade
como pano de fundo para as esculturas em primeiro plano.
Quando o assunto é a
famosa Loira do Bonfim, as opiniões divergem: oficialmente, os funcionários
dizem que “é só história! Nada foi provado!” Dona Elza diz que “era um travesti
que se vestia assim para assustar os pedestres, mas ele já foi preso.” No
entanto, alguns visitantes afirmam que existe mesmo a alma que ronda as ruas no
entorno no cemitério, atraindo homens, mas que não chega a lhes fazer mal.
A lenda surgiu por
volta dos anos 1940, quando, segundo relatos, uma mulher loira, muito bonita,
vestida de branco, pedia carona e se oferecia para programas sexuais à
motoristas de táxi, motoristas de trânsito ou passageiros que aguardavam nos
pontos na região central. Dizendo que morava no bairro Bonfim, a Loira os
conduzia até as proximidades do cemitério e lá, desaparecia.
Alguns supersticiosos
dizem que ela, na verdade, está enterrada no cemitério, mas sai do túmulo para
resolver “assuntos inacabados”. A lenda se assemelha à da Mulher de Branco,
comum em várias partes do mundo e da “Loira do Banheiro”. O caso é que muitos
ficam apreensivos ao passar pelo Bonfim à noite.
Seja pelos seus mistérios
ou pelo seu acervo cultural e histórico,
o fato é que o Cemitério do Bonfim segue chamando a atenção e se consolidando
como uma das principais atrações da cidade. Um local em que o sagrado, o
popular e o sobrenatural andam de mão dadas.
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